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Pesquisadores e professores universitários de Comunicação divulgaram carta em que manifestam preocupação com os rumos dos debates sobre a adoção do rádio digital no Brasil.
Segundo os pesquisadores, os testes com o padrão digital IBOC (in-band on-channel) estão sendo realizados pelas emissoras autorizadas sem a utilização de uma metodologia ou padronização de critérios e procedimentos compatíveis com as condições brasileiras, o que impede a obtenção de resultados que permitam saber com segurança se, por exemplo, o padrão em teste provoca ou não interferência mútua entre os sinais digital e analógico.
Os professores alertam que o processo de digitalização poderá trazer dificuldades de adaptação para a maior parte das emissoras, sobretudo as pequenas e médias instaladas no interior, as educativas e as comunitárias, por falta de recursos para investimento. “A adoção de uma tecnologia não pode ser um fator de aprofundamento de diferenças de padrões técnicos e de produção já existente entre as estações de grande porte e as demais – pequenas e médias – que integram o sistema de radiodifusão brasileiro”, afirma a carta.
Ainda em relação à tecnologia, o texto critica o fato da tecnologia preferida pelos grandes radiodifusores e pelo Ministério das Comunicações ser proprietária. Segundo a carta, essa “condição coloca os radiodifusores sujeitos aos ditames da empresa, a iBiquity Digital Corporation, que administra os direitos de uso da tecnologia. Podem, assim, perder o controle sob o gerenciamento do processo de instalação e definição de equipamentos”.
Os pesquisadores também alertam para o pedido de ampliação do uso de espectro de 200 kHz para 250 kHz apresentado em julho de 2007 pela iBiquity, proprietária norte-americana do padrão IBOC, junto à Federal Communications Commission (FCC). “Esta alteração é uma demanda técnica, sem a qual o padrão não apresentará um desempenho satisfatório. Se for concedida pela FCC, a ampliação de freqüência poderá significar a redução de cerca de 30% no total de canais em freqüência modulada hoje disponíveis naquele país”.
Por fim, a carta manifesta estranheza pelo fato do IBOC não possuir canal de retorno. “Sem esse recurso, perde-se a interatividade, justamente um dos aspectos destacados como positivos no processo de introdução da televisão digital no país. Isto, portanto, pode significar ampliação das disparidades existentes entre os dois veículos e perda, no caso específico do rádio, da possibilidade de intensificar a participação dos ouvintes nas estratégias de programação das emissoras”, afirma o documento.
Confira a íntegra da carta:
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CARTA DOS PESQUISADORES DE RÁDIO E MÍDIA SONORA DO BRASIL
Nós, os 72 abaixo-assinados, pesquisadores e professores universitários de Comunicação Social e áreas afins, todos tendo por objeto de estudo a radiodifusão sonora, tornamos pública nossa preocupação a respeito do processo de implantação do rádio digital em nosso país. Não nos movem para tanto interesses de ordem partidária. Apenas queremos que a oportunidade tecnológica posta à frente de todos sirva ao bem comum e ao desenvolvimento do Brasil. Temos clara a importância do veículo para a população do país, do empresário que acompanha a evolução dos índices da economia ao trabalhador a quem o rádio oferece certo grau de solidariedade. Temos, também, consciência dos problemas deste meio em suas vertentes comercial, educativa e comunitária, que se deparam com a encruzilhada da convergência multimídia.
Realizando estudos a respeito há vários anos, acompanhamos tanto as políticas e as estratégias públicas para a introdução da tecnologia digital como os movimentos da classe empresarial e das organizações da sociedade civil a respeito. Alertamos, portanto, para o que foi constatado até agora:
1. Preocupa-nos que os testes com o padrão digital IBOC (in-band on-channel) estejam sendo realizados pelas emissoras autorizadas sem a utilização de uma metodologia ou padronização de critérios e procedimentos compatíveis com as condições brasileiras. A ausência de uma padronização impede a obtenção de resultados consistentes dos experimentos que permitam saber com segurança se, por exemplo, o padrão em teste provoca ou não interferência mútua entre os sinais digital e analógico.
2. Entendemos que o padrão de rádio digital a ser adotado deve ser capaz de garantir eficiência de transmissão em qualquer situação de recepção. Embora os testes realizados não tenham padronização, é possível identificar alguns problemas de adequação do padrão IBOC às características de cada localidade, como edificações e topografia e problemas de poluição radioelétrica. Pesquisadores que acompanharam testes em emissoras observaram problemas de interrupções abruptas do sinal digital em locais onde havia fios de alta tensão (rede elétrica), prédios e túneis, forçando o aparelho receptor a transmitir em analógico, com um delay que pode chegar a oito segundos.
3. Preocupa-nos o fato de que processo de digitalização poderá trazer dificuldades de adaptação para a maior parte das emissoras, sobretudo as pequenas e médias instaladas no interior, as educativas e as comunitárias, por falta de recursos para investimento. É provável que 50% das estações em funcionamento precisem trocar transmissores a válvulas por modulares para se adaptarem à tecnologia digital. Investimento igualmente significativo será necessário para digitalizar o processo de produção radiofônica, com a troca de equipamentos de estúdio, especialmente se for considerado o baixo nível de informatização interna das rádios no interior do país. É desejável que o padrão a ser adotado permita maior grau possível de aproveitamento de infra-estrutura existente e que apresente custos compatíveis com os diversos tipos de emissoras. A adoção de uma tecnologia não pode ser um fator de aprofundamento de diferenças de padrões técnicos e de produção já existente entre as estações de grande porte e as demais – pequenas e médias – que integram o sistema de radiodifusão brasileiro.
4. Inquieta-nos saber que o padrão em teste é uma tecnologia proprietária, cujos custos de royalties poderão inviabilizar a sua adoção por parte de emissoras comunitárias e educativas. Além disso, essa condição coloca os radiodifusores sujeitos aos ditames da empresa, a iBiquity Digital Corporation, que administra os direitos de uso da tecnologia. Podem, assim, perder o controle sob o gerenciamento do processo de instalação e definição de equipamentos.
5. Entendemos que a tecnologia de transmissão a ser escolhida terá de ser flexível, a ponto de favorecer a integração do rádio com as demais mídias e com sistemas de redes informatizadas. É importante que o sistema de transmissão tenha ferramentas multimídia que possibilitem a oferta de conteúdo na tela de cristal líquido do receptor digital ou em outras plataformas de mídia convergente. No entanto, essa vantagem tecnológica, que poderá representar receita adicional, não foi testada pelas emissoras autorizadas pela Agência Nacional de Telecomunicações.
6. Consideramos que a adoção de qualquer padrão digital deve ser precedida por uma ampla análise técnica sobre as condições de funcionamento da tecnologia em outros países. Chama atenção o pedido de ampliação do uso de espectro de 200 kHz para 250 kHz apresentado em julho de 2007 pela iBiquity, proprietária norte-americana do padrão IBOC, junto à Federal Communications Commission (FCC). Esta alteração é uma demanda técnica, sem a qual o padrão não apresentará um desempenho satisfatório. Se for concedida pela FCC, a ampliação de freqüência poderá significar a redução de cerca de 30% no total de canais em freqüência modulada hoje disponíveis naquele país. Partilhamos da opinião da Benton Foundation, organização internacional dedicada à articulação de políticas para o uso da comunicação na solução de problemas sociais e em prol do desenvolvimento, que vê no aumento da largura do canal ocupado por uma estação uma possibilidade de redução de disponibilidade de espectro para eventuais novos atores.
7. Causa-nos estranheza a inexistência de canais de retorno no sistema digital em teste. Sem esse recurso, perde-se a interatividade, justamente um dos aspectos destacados como positivos no processo de introdução da televisão digital no país. Isto, portanto, pode significar ampliação das disparidades existentes entre os dois veículos e perda, no caso específico do rádio, da possibilidade de intensificar a participação dos ouvintes nas estratégias de programação das emissoras.
De modo geral, alertamos para a perda de uma oportunidade, se embasada em estudos mais acurados, de transformação positiva do rádio, ampliando não só suas possibilidades comerciais, educativas e comunitárias, mas também produzindo condições para um efetivo exercício da cidadania e contribuindo para o desenvolvimento do Brasil, de forma democrática, ampla e solidária. Lembramos, ainda, que a oportunidade atual deve servir ao crescimento do setor como um todo, crescimento este que vai além do mero faturamento comercial, mas significa novos postos de trabalho e maior interação social.
Ficamos à disposição para esclarecimentos através do e-mail
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. 1. Álvaro Bufarah Júnior 2. Ângelo Pedro Piovesan Neto 3. Ana Baumworcel 4. Ana Luisa Zaniboni Gomes 5. Andréa Pinheiro6. Antonio Adami 7. Antônio Francisco Magnoni 8. Ayêska Paulafreitas de Lacerda 9. Bibiana de Paula Friderichs 10. Carlos Eduardo Esch 11. Carmen Lúcia José 12. César Augusto Azevedo dos Santos 13. Cida Golin 14. Claudia Irene de Quadros 15. Clóvis Reis 16. Daniel Gambaro 17. Daniela Carvalho 18. Daniela Ota 19. Doris Fagundes Haussen 20. Eduardo Meditsch 21. Eduardo Vicente 22. Flávia Lúcia Bazan Bespalhok 23. Flávio Falciano 24. Francisco de Moura Pinheiro 25. Gilda Soares Miranda 26. Gisele Sayeg Nunes Ferreira 27. Graziela Soares Bianchi 28. Heloísa de Araújo Duarte Valente 29. Hernando Gutiérrez 30. Irineu Guerrini Júnior 31. Jandira Aparecida Alves de Rezende 32. João Batista de Abreu Junior 33. João Batista Neto Chamadoira 34. José Eduardo Ribeiro de Paiva 35. José Eugênio de Menezes 36. Júlia Lúcia de Oliveira da Silva 37. Lenize Villaça38. Lia Calabre 39. Lílian Zaremba 40. Luciana Miranda Costa 41. Luciano Klöckner 42. Luiz Antonio Veloso Siqueira 43. Luiz Artur Ferraretto 44. Macello Medeiros 45. Magaly Prado 46. Marcelo Cardoso 47. Maria Clara Lanari Bó 48. Márcia Detoni 49. Marcos Júlio Sergl 50. Mário Ramão Villalva Filho 51. Marta Regina Maia 52. Mauro José Sá Rego Costa 53. Mirna Spritzer 54. Moacir Barbosa de Sousa 55. Mônica Panis Kaseker 56. Mozahir Salomão Bruck 57. Nair Prata 58. Nélia Del Bianco 59. Patrícia Rangel 60. Pedro Vaz Filho 61. Ricardo Leandro de Medeiros 62. Rosana Beneton 63. Rúbia Vasques 64. Sandra Sueli Garcia de Sousa 65. Sônia Caldas Pessoa 66. Thais Renata Poletto 67. Sonia Virgínia Moreira 68. Waldiane de Ávila Fialho 69. Wanderlei de Britto 70. Wanir Campelo Siqueira 71. Valci Regina Mousquer Zuculoto 72. Vera Lúcia Guimarães Rezende
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