Discutindo a TV religiosa

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Luciano Martins Costa - para o Observatório da Imprensa
24.11.2011
Reportagem no jornal O Estado de S.Paulo informa que o Ministério Público Federal na cidade de Guaratinguetá pediu à Justiça a anulação das concessões das emissoras de TV Canção Nova e TV Aparecida, sediadas no interior paulista e controladas por organizações ligadas à igreja católica

O motivo apresentado é técnico – a TV Canção Nova é controlada pela Fundação João Paulo II, grupo ligado à Renovação Carismática, e a TV Aparecida é parte da rede do Santuário de Aparecida – e, nos processos administrativos no Ministério das Comunicações, seus pedidos de concessão têm como justificativa o suposto caráter educativo das emissoras.

Por essa razão, segundo o Ministério Público, deveria ter havido uma licitação para selecionar a organização que apresentasse o melhor projeto educacional.

É mais do que sabido que nenhuma das duas emissoras tem qualquer vínculo com projetos de educação. Elas servem como veículos para pregação religiosa e apoio a políticos ligados aos dois grupos católicos. Portanto, houve fraude no processo administrativo.

Suas programações são ocupadas por transmissões de missas, entrevistas com sacerdotes e próceres do catolicismo ligados a uma e outra das tendências que dominam a igreja, e alguns programas com palestras e debates variados, sempre pontuados por pregação religiosa.

Em meio aos religiosos profissionais, parlamentares e outras autoridades disputam o espaço de influência sobre os fiéis telespectadores.

Não há o menor sinal de diversidade de crenças ou sequer de tolerância com relação a outras confissões.

Motivação política

Mesmo com a declaração do Ministério Público de que se trata de um procedimento normal, uma vez que a concessão foi dada sem licitação, a reportagem do Estadão dá a entender que se trata de uma iniciativa de inspiração política.

As duas emissoras estiveram envolvidas, no ano passado, na polêmica em torno da questão do aborto. A TV Canção Nova chegou a transmitir, durante a campanha eleitoral, um programa ao vivo no qual um padre pedia aos católicos que não votassem na então candidata Dilma Rousseff.

A mera insinuação de que poderia estar havendo interesses políticos envolvidos na iniciativa do Ministério Público Federal desvia a questão do tema central, que se refere à democratização dos meios de comunicação.

A concessão para exploração de canais de televisão é feita pela Presidência da República, após análise do Ministério das Comunicações, e ratificada pelo Congresso.

No caso das duas emissoras católicas, o que está sendo contestado é o processo administrativo, onde costumam ocorrer os vícios que levam a transgressões na lei, como a outorga de canais de rádio e TV a parlamentares.

Televisão para todos

Contribui para desviar o assunto das razões apresentadas pelo Ministério Público o fato de que, recentemente, o conselho deliberativo da TV Canção Nova decidiu suspender a transmissão do programa Justiça e Paz, apresentado pelo presidente do PT de São Paulo, deputado estadual Edinho Silva. A suspensão ocorreu no dia da estreia, quando o dublê de parlamentar e apresentador levou como convidado, para uma entrevista, o secretário-geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho.

Segundo o Estadão, o ministro, que é católico e ligado a grupos religiosos, havia intermediado a reaproximação entre a presidente Dilma Rousseff e dirigentes da Canção Nova.

A inclusão dessa informação na notícia sobre a medida do Ministério Público contribui para dar um caráter político à iniciativa da procuradoria.

Segundo a direção da emissora, o afastamento do deputado-apresentador faz parte de um processo de mudanças na grade de programação. Também foram suspensos os programas de outros políticos, como o deputado federal Gabriel Chalita, os deputados estaduais Eros Biondini e Myriam Rios, além do secretário de Desenvolvimento Econômico do Estado de São Paulo, Paulo Barbosa, e da primeira-dama paulista, Maria Lúcia Alckmin.

A ação do Ministério Público Federal abre espaço para uma discussão que a imprensa aparentemente não tem intenção de abrigar: a outorga de concessões de canais de rádio e TV para grupos eminentemente religiosos cuja militância é travestida de ação educativa.

Segundo o procurador Adjame Oliveira, autor das ações contra a TV Canção Nova e TV Aparecida, o processo de outorga sem licitação contraria o princípio da utilização democrática e transparente dos canais de televisão.

A rigor, se grupos católicos podem ter suas emissoras, com o argumento da atividade educacional, nada impede que qualquer cidadão crie uma seita e pleiteie também sua própria televisão.

Afinal, três jornalistas da Folha de S.Paulo já demonstraram em novembro de 2009 (ver aqui) que no Brasil se pode criar uma igreja em cinco dias úteis, com a quantia de R$ 418,42 em taxas e emolumentos.

Muito mais fácil do que abrir uma microempresa.


Comentário para o programa radiofônico do OI, 24/11/2011
Comentários
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Leniéverson Azeredo Gomes  - Discurso de Extrema-Esquerda.   |201.5.107.xxx |2011-11-27 12:02:41
Eu nunca li tanta tolice em minha vida.Em primeiro lugar a Igreja Católica existe há 2000 anos e a Igreja no Brasil é a segunda instituição mais confiável do Brasil, segundo a FGV, atrás apenas do corpo de bombeiros.Em segundo lugar, no mundo a Igreja Católica fundou as primeiras universidades, criou o conceito de hospital com as Santas Casas, lugares chamados de Hospedagem de Deus (Hospital), foi um monge católico que criou as notas musicais, dentre outras notáveis importâncias para a sociedade.
A Igreja Católica não é uma seita, é uma Igreja que ao longo da sua história, comeu seus erros, mas tem muitos acertos.Não me venha me dizer da Inquisição Católica, porque a Inquisição Comunista matou 100 milhões de pessoas, não me venha falar de pedofilia na Igreja, porque 58% ou bem mais estão entre pessoas não-religiosa, dentre eles muitos casados.
Portanto, para o leitor ingênuo, seu texto pode ser configurado como um discurso belo, mas que é revestido de preconceito contra as religiões.Se somos contra o aborto, a união civil gay, somos contra as drogas e a sua liberação, entre outros temas polêmicos.
Em terceiro lugar, se você acha que as Igrejas não deve ter suas TV´s, porque não cassar as Tv´s de sexo, de lutas marciais, entre outros, não me diz que isso tudo é educativo?Não me faça rir, né?
Em quarto lugar, se as TV´s são católicas tem de ter programação católica e seus valores.Óbvio, né?Como dois e dois são quatro.
E outra, ninguém do PT é católico autêntico, só de fachada e de discurso falso.E as emissoras católicas não pode abrigar esses abortistas e pessoas a favor da destruição da sociedade real.
Se você for honesto publique o que eu escrevi.
Saudações.

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